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Postagens

Bem falar para bem sentir: uma proposta terapêutica

De acordo com Cícero, um bom filósofo é também um bom orador. A filosofia se conjuga com a oratória na medida em que não se separa o pensamento da sua expressão. Sendo assim, quem se expressa bem, pensa bem.

Cabe lembrar, aliás, que para Cícero não se trata apenas de pensar bem teorias, mas também a si mesmo. Como a filosofia para os antigos servia para se aproximar efetivamente da sabedoria, tal prática servia igualmente para se buscar uma vida mais sábia e, no caso, melhor.

Em vista disso, selecionei um trecho do livro Cícero, de Auvray-Assayas, que expõe a forma como pensador romano relaciona a oratória a uma terapêutica daquilo que os antigos chamavam de paixões (impulsos emocionais):

"Contestando a ideia defendida pelos peripatéticos [aristotélicos], para quem as paixões são aguilhões úteis e naturais, Cícero pode apontar algumas distinções essenciais: a coragem no campo de batalha não precisa da fúria, conforme anseiam os peripatéticos leitores de Homero, e é preciso dist…
Postagens recentes

Epicteto e os exercícios para uma vida sábia

É com grande alegria que informo que foi publicado meu artigo Exercícios Filosóficos em Epicteto na revista Intuitio da PUCRS.

Eis o resumo:
"O presente artigo trata do pensamento de Epicteto pelo viés do exercício (áskesis), ou seja, por meio de práticas que conduzem ao aperfeiçoamento de quem elege para si o ofício de filósofo. Para tal, inicialmente esclarecemos o que significam os exercícios na filosofia antiga, tendo como subsídio as teses de Pierre Hadot. Logo depois, exploramos seis exercícios que consideramos centrais para o filósofo de Nicópolis, contextualizando com os ensinamentos que estão envolvidos e descrevendo as principais características de seu método. Por fim, defendemos que a importância deste artigo está em esclarecer a áskesis em Epicteto de maneira a evitar possíveis anacronismos."

Abaixo, um excerto do texto:
"Quando se assume que a filosofia envolve também exercício, parte-se do pressuposto que somente a elaboração teórica não é suficiente par…

A lamentação e a plenitude

Conforme descreve J.-P. Vernant:
"Hipólito, ferido e sangrando, acaba de ser transportado; ele vê abrir-se diante de si as portas do Hades [reino dos mortos]. De repente, [a deusa] Ártemis aparece ao seu lado. O jovem reconhece-a, empenha-se em um último diálogo com ela, afetuoso e apaixonado: 'Ó senhora, vês o meu estado miserável?' O que responde a deusa? 'Vejo, mas aos meu olhos são proibidas as lágrimas'. οὐ θέμις: seria con­trário à ordem que olhos divinos chorassem pelas misérias dos mortais. Logo a deusa deixa Hipólito;"
Nota 17: "Um dos aspectos do trágico grego é essa solidão na qual o homem se encontra diante da morte e, mais geralmente, diante de tudo o que marca a existência humana com o selo da privação, do não-ser. Em meio a esses insucessos, a essas provações, no limiar da morte, o homem sente-se sob o olhar de um divino que se define pela sua perfeita plenitude de ser, sem relação, sem participação possível com o mundo da “paixão” [arro…

Rodo cotidiano - O Rappa (gravado em casa)

Eu e o Everton (amigo de longa data) num final de semana, após uma boa conversa, resolvemos tocar violão e cantar. Abrimos umas cervejas, eu toquei uma música, ele outra. Papo vai, papo vem, pensamos em registrar uma música naquele momento, sem ensaio, na hora mesmo. Uma música que lembra nossas referências, nossa visão das coisas.

Uma música que fala sobre o cotidiano e, principalmente, sobre esse "rodo" que empurra nosso povo cansado, com sua quentinha abafada, numa espécie de curral. Empurra para um "ralo de gente" visto como comum e normal.



Grande Barba, grande amigo. Essa postagem é para celebrar a música, a arte que nos aproxima, a nossa amizade. A maré para pessoas como nós pode não estar a favor nesse momento, os tempos são tacanhos, caretas, ignorantes; mas tem uma coisa que podemos fazer. Como diz a charge abaixo:

Um brinde à musica.
Um brinde também às nossas composições.

"Sempre em frente, não temos tempo a perder.
Nosso suor sagrado é bem mais b…

Os Antigos e os Modernos: a filosofia vivida e a filosofia para especialistas

Agir sem apego aos resultados: uma lição do Bhagavad Gita

Resolvi compartilhar excertos de um lindo texto que estou lendo. Trata-se do Bhagavad Gita, a sublime canção [da Grande Índia]. Os trechos que separei foram os que me chamaram a atenção por serem ensinamentos focados na ação, não nas consequências. Diferente do pensamento ético utilitário, que se volta às consequências das ações, os ensinamentos de Krishna se direcionam para as próprias ações.

Fiquemos então com os trechos:

“Você tem o controle tão somente da vontade em realizar o seu ofício, mas não tem direito ou garantia dos resultados de sua obra. Dessa forma, você não deve nunca estar inativo, e jamais basear a sua motivação nos frutos do seu trabalho, apenas na alegria de cumprir o seu ofício. Realize a sua obra com o máximo das suas habilidades, ó Arjuna, com sua mente sempre em conexão com o Espírito eterno. Abandone as preocupações e os apegos egoístas aos resultados do seu trabalho, e trafegue com a mesma calma e serenidade pelo sucesso e o fracasso.” (2.47-48)

“Conforme os i…

O Hábito como Exercício Filosófico em Epicteto

Pessoal,

É com grande alegria que informo que foi publicado na Revista Prometeus Filosofia o meu artigo sobre o hábito no pensamento epictetiano. A todos que se interessam pela parte prática da filosofia, faço aqui o convite à leitura. Estou aberto à sugestões, comentários, observações, etc.

Abaixo, o resumo do artigo:

O hábito para os estoicos deve ser entendido de modo diferente da maneira descrita por Platão ou Aristóteles. Dado que, para estes, a formação do caráter é considerada a partir de uma psicologia que aborda a alma por meio de partes distintas, tal interpretação os levou a descrever o hábito como um elemento fundamental para a educação da parte irracional da alma, enquanto a parte racional é educada por meio da razão. Para os estoicos, no entanto, o hábito se faz importante para a alma como todo, sem distinção entre racional e irracional. Seguindo essa perspectiva, Epicteto não trata da habituação de qualquer elemento irracional. Quando o filósofo fala em “habituar-se” …