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Postagens

A luta cotidiana contra os falsos valores

Lendo a introdução deste livro que traduz as Cartas escritas por Sêneca, deparei-me com um trecho instigante e extremamante relevante para o nosso tempo. Tive vontade de compartilhar. O trecho é este:
"No seu livro Über den Ungehorsam, referindo-se aos nossos tempos, escreveu Erich Fromm:
'É indubitável que nunca como hoje está tão difundido no mundo o conhecimento das grandes ideias da humanidade. Nunca, contudo, foi a sua influência também tão diminuta. Os pensamentos de Platão e Aristóteles, dos Profetas e de Cristo, de Espinoza e de Kant são hoje conhecidos por milhões de pessoas cultas na Europa e na América. Eles são ensinados em inúmeras Escolas, sobre alguns deles fazem-se prédicas em todo o mundo nas Igrejas de todas as confissões. E tudo isto se verifica simultaneamente num mundo em que se presta obediência aos princípios de um egoísmo sem limites, se cultiva um nacionalismo histérico e se prepara um tresloucado genocídio. Como é possível explicar semelhante contradi…
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O progresso ético como ação filosófica

O intelectual pode viver um vida envolta por bons argumentos e erudita, mas com pouca alegria e tranquilidade. É por isso que se diferencia o sábio do intelectual. O primeiro sabe viver, o segundo ainda não. Possuir informações, saber argumentar, ter raciocínio apurado não necessariamente torna alguém sábio. Nesse sentido, a sabedoria visada pela filosofia requer algo diferente do mero bom desempenho intelectual ou argumentativo, como podemos ver abaixo:

(...) [Para Epicteto] o problema é quando se acredita que o progresso do filósofo acontece apenas por meio do aperfeiçoamento argumentativo ou pela capacidade de analisar discursos ou textos. É levando isso em consideração que Epicteto travou o seguinte diálogo com alguém que lhe ouvia:

Então me mostra aí o teu progresso. Do mesmo modo que, se eu dissesse a um atleta “Mostra-me tuas espáduas e teus braços”, e ele dissesse “Olha meus halteres”. Tu olharás teus halteres. Eu desejo ver o efeito dos halteres.
– Toma o tratado SobreoImpul…

A VIDA É INJUSTA?

Eis que lendo este instigante livro do Sandel, encontro aquele brilho da filosofia:
"Em 1980, quando Ronald Reagan concorreu à presidência, o economista Milton Friedman publicou um best-seller em coautoria com a mulher, Rose, intitulado Livres para escolher (Free to Choose). Era uma defesa vigorosa e explícita da economia de livre mercado e tornou-se a bíblia — ou o hino — dos anos Reagan. Ao defender os princípios do laissez-faire contra as objeções igualitárias, Friedman fez uma surpreendente concessão. Ele reconheceu que os indivíduos criados em famílias abastadas e que frequentaram escolas de elite têm uma vantagem injusta em relação àqueles que vêm de lares menos privilegiados. Ele também admitiu que os indivíduos que, sem nenhum mérito próprio, herdaram talento e dotes ocupam uma posição privilegiada e injusta em relação aos demais. Diferentemente de Rawls, no entanto, Friedman insiste em que não devemos tentar remediar essa injustiça. Ao contrário, devemos aprender a conv…

A ética e as demais partes da filosofia estóica

A ética estoica está cada vez mais em evidência. Ela está cada vez mais influenciando não só quem estuda filosofia, mas também o público em geral por meio de livros mais acessíveis ao grande público. Há também movimentos ao redor do mundo que estão a resgatar a ética estoica para os dias atuais. Além disso, edições de livros dos estoicos romanos estão cada vez mais acessíveis ao público brasileiro, seja por meio digital, seja por meio de publicações de livros físicos.
No entanto, há outros aspectos que também são importantes para se conhecer a filosofia estoica, inclusive no que se refere à ética: os aspectos lógicos e físicos. Não é à toa que os estoicos dividiram a filosofia em ética, lógica e física: essas três partes se entrelaçam no pensamento filosófico estoico.
Neste vídeo, gravado no IV Colóquio Brasileiro Sobre Epicteto, busco esclarecer de que modo essas três partes se relacionam no ensino do estoicismo e em que medida as partes lógica e física se relacionam co…

Quando dizer a verdade não adianta

"Cassandra, ou franqueza de linguagem

Narram [os poetas] que Cassandra foi amada por Apolo; que, mediante uma série de artifícios, procurou obstar a seus desejos na esperança de obter dele o dom da divinação; e que, tão logo alcançou esse objetivo por tanto tempo dissimulado, repeliu-lhe francamente a corte. De sorte que, não podendo Apolo retomar-lhe um presente que inconsideradamente prometera, mas ávido de vingança (pois não queria tornar-se o escárnio de uma mulher astuciosa), acrescentou-lhe um castigo: embora destinada a dizer sempre a verdade, ninguém acreditaria nela. Portanto, suas profecias tinham verdade, mas não crédito. Isso ela pôde constatar em tudo, mesmo no tocante à destruição de sua pátria. Fora muitas vezes advertida do que havia de suceder ao país, mas não conseguia fazer que a ouvissem ou acatassem.
Essa fábula parece ter sido concebida para provar quão pouco razoável e útil é a liberdade de dar aviso e conselho. Pois há pessoas de ânimo duro e obstinado que…

Os Sofrimentos da Alma: As Paixões sob a Perspectiva do Estoicismo

É com grande alegria que informo que foi publicado meu artigo "Os Sofrimentos da Alma: As Paixões sob a Perspectiva do Estoicismo" na revista Princípios da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

Eis o resumo:
Neste artigo exploramos a concepção estoica de πάθος, suas causas e consequências. Inicialmente abordamos o modo como as paixões se encaixam na ética estoica, uma vez que elas se mostram como impedimentos para aquele que quer viver melhor. Logo depois, analisamos os debates realizados no seio da escola, os acréscimos e os aperfeiçoamentos teóricos. Por fim, mostramos a distinção entre πάθη, προπάθειαι e εὐπαθεῖαι, pois isso propicia uma melhor compreensão da dimensão emocional da psicologia da Stoa, servindo principalmente para evitar interpretações precipitadas que podem ocorrer ao se ler um texto estoico.

Link para o texto: https://periodicos.ufrn.br/principios/article/view/14235

Bem falar para bem sentir: uma proposta terapêutica

De acordo com Cícero, um bom filósofo é também um bom orador. A filosofia se conjuga com a oratória na medida em que não se separa o pensamento da sua expressão. Sendo assim, quem se expressa bem, pensa bem.

Cabe lembrar, aliás, que para Cícero não se trata apenas de pensar bem teorias, mas também a si mesmo. Como a filosofia para os antigos servia para se aproximar efetivamente da sabedoria, tal prática servia igualmente para se buscar uma vida mais sábia e, no caso, melhor.

Em vista disso, selecionei um trecho do livro Cícero, de Auvray-Assayas, que expõe a forma como pensador romano relaciona a oratória a uma terapêutica daquilo que os antigos chamavam de paixões (impulsos emocionais):

"Contestando a ideia defendida pelos peripatéticos [aristotélicos], para quem as paixões são aguilhões úteis e naturais, Cícero pode apontar algumas distinções essenciais: a coragem no campo de batalha não precisa da fúria, conforme anseiam os peripatéticos leitores de Homero, e é preciso dist…