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É a tua opinião que te constrange

"Pode alguém te impedir de inclinar-te para a verdade? Ninguém pode. Pode alguém te constranger a aceitar o falso? Ninguém pode. Vês que, nesse mesmo tópico, possuis a capacidade de escolha desimpedida, não constrangida, desembaraçada? Vejamos: é diferente em relação à capacidade do desejo e à capacidade do impulso? Então o que pode vencer um impulso senão outro impulso? O que pode vencer o desejo e a repulsa senão outro desejo e outra repulsa?” – Se – diz um dos presentes – alguém me infundir o medo da morte, ele me constrangerá. – Constrangerá não o que infundiu o medo da morte, mas constrangerás a ti mesmo porque te parece melhor fazer alguma dessas coisas que morrer. Assim, ao contrário, é a tua opinião que te constrange – isto é, a escolha constrange a escolha." (Diatribes de Epicteto, 1, 17, 22-26)

Sobre pobreza e filosofia

Trecho extraído das cartas de Sêneca:  "É esse então o teu problema, é por isso q ue adias a tua formação: para não te res de recear a pobre za! E não será a po b reza desejável? Muitos há a quem a riqueza impediu de dedicar - se à filosofia. A pobreza não é obstá culo, não é motivo de angústias . O pobre, quando ouve os clarins soarem, sabe que o caso lhe não respeita; quando ouve gritar por água, procura o meio de escapar ao fogo, sem cuidar dos objectos a salvar; se tem de viajar por mar, não provoca bulício no porto nem faz com que a escolta dum único viajante encha de estrépito o cais; não tem à sua volta uma multidão de escravos para cujo sus t ento seja preciso recorrer à fertilidade de regiões longín quas. Não tem problema sustentar meia -dú zia de estômagos de hábitos saudáveis e sem outra ambição senão serem saciados. A fome contenta-se com pouco, os pala dare s requintados é que têm g randes exigências . A pobreza limita - se a satisfazer as necessidades mais prementes ...

A erudição e a música

Adicionar legenda "A música não depende de estarmos com razão, de termos bom gosto ou erudição musical e tudo o mais.  – Ah, não? E de que depende então?  – De se fazer música, Sr. Haller, de se fazer música tão boa e tão abundante quanto possível e com toda a intensidade de que alguém é capaz. Aí é que está a coisa, monsieur . Ainda que eu tivesse na memória toda a obra de Bach e de Haydn e pudesse dizer as coisas mais admiráveis a respeito delas, não teria a menor utilidade para os outros." (Hesse, H. O lobo da estepe , p. 145.)

Indiferença e sociabilidade natural no estoicismo

"A indiferença estoica é profundamente diferente da indiferença pirroniana (ceticismo de Pirro). Para o pirrônico, tudo é indiferente porque não se pode saber se uma coisa é boa ou má. Não há aqui nada que não seja indiferente, é a própria indiferença. Para o estoico, há uma única coisa que não é indiferente: a intenção moral, que se põe como boa ou má e leva o homem a modificar-se a si mesmo e à sua atitude com relação ao mundo. E indiferença consiste em não fazer diferença, mas em querer, amar mesmo, de maneira igual, tudo o que é determinado pelo destino. Mas pode-se perguntar como o estoico orienta-se na vida, se tudo é indiferente exceto a intenção moral. Deve-se casar, exercer uma atividade política ou um oficio, servir à pátria? Aqui aparece uma parte essencial da doutrina estoica: a teoria dos "deveres" (não a do dever em geral) ou das "ações apropriadas". Essa teoria vai permitir à vontade boa econtrar matéria de exercício, para ser guiada por um ...

Montaigne e a Providência divina: fortunas e infortúnios

Trecho extraído dos ensaios de Montaigne: Que é preciso prudência para se meter a julgar os decretos divinos O verdadeiro campo e assunto da impostura são as coisas desconhecidas, tanto mais que, em primeiro lugar, a própria estranheza lhes dá crédito, e, além disso, não estando mais sujeitas a nossos raciocínios habituais, nos retiram o meio de combatê-las. Por isso, diz Platão, é bem mais fácil satisfazer as pessoas ao falar da natureza dos deuses que da natureza dos homens, pois a ignorância dos ouvintes permite ao manejo de tais matérias secretas uma bela e longa carreira, em absoluta liberdade. Daí resulta que em nada se crê tão firmemente como naquilo que menos se sabe, e que não há pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, como alquimistas, especialistas em prognósticos, astrólogos, quiromantes, médicos, id genus omne. [todos os dessa espécie.] A eles, de bom grado eu acrescentaria, se me atrevesse, uma profusão de pessoas, intérpretes e controladores comuns dos de...

A luta cotidiana contra os falsos valores

Lendo a introdução deste livro que traduz as Cartas escritas por Sêneca, deparei-me com um trecho instigante e extremamante relevante para o nosso tempo. Tive vontade de compartilhar. O trecho é este: "No seu livro Über den Ungehorsam , referindo-se aos nossos tempos, escreveu Erich Fromm: 'É indubitável que nunca como hoje está tão difundido no mundo o conhecimento das grandes ideias da humanidade. Nunca, contudo, foi a sua influência também tão diminuta. Os pensamentos de Platão e Aristóteles, dos Profetas e de Cristo, de Espinoza e de Kant são hoje conhecidos por milhões de pessoas cultas na Europa e na América. Eles são ensinados em inúmeras Escolas, sobre alguns deles fazem-se prédicas em todo o mundo nas Igrejas de todas as confissões. E tudo isto se verifica simultaneamente num mundo em que se presta obediência aos princípios de um egoísmo sem limites, se cultiva um nacionalismo histérico e se prepara um tresloucado genocídio. Como é possível explicar semelhante cont...

O progresso ético como ação filosófica

O intelectual pode viver um vida envolta por bons argumentos e erudita, mas com pouca alegria e tranquilidade. É por isso que se diferencia o sábio do intelectual. O primeiro sabe viver, o segundo ainda não. Possuir informações, saber argumentar, ter raciocínio apurado não necessariamente torna alguém sábio. Nesse sentido, a sabedoria visada pela filosofia requer algo diferente do mero bom desempenho intelectual ou argumentativo, como podemos ver abaixo: (...) [Para Epicteto] o problema é quando se acredita que o progresso do filósofo acontece apenas por meio do aperfeiçoamento argumentativo ou pela capacidade de analisar discursos ou textos. É levando isso em consideração que Epicteto travou o seguinte diálogo com alguém que lhe ouvia: Então me mostra aí o teu progresso. Do mesmo modo que, se eu dissesse a um atleta “Mostra-me tuas espáduas e teus braços”, e ele dissesse “Olha meus halteres”. Tu olharás teus halteres. Eu desejo ver o efeito dos halteres. – Toma o tratado  S...