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Indiferença e sociabilidade natural no estoicismo

"A indiferença estoica é profundamente diferente da indiferença pirroniana (ceticismo de Pirro). Para o pirrônico, tudo é indiferente porque não se pode saber se uma coisa é boa ou má. Não há aqui nada que não seja indiferente, é a própria indiferença. Para o estoico, há uma única coisa que não é indiferente: a intenção moral, que se põe como boa ou má e leva o homem a modificar-se a si mesmo e à sua atitude com relação ao mundo. E indiferença consiste em não fazer diferença, mas em querer, amar mesmo, de maneira igual, tudo o que é determinado pelo destino. Mas pode-se perguntar como o estoico orienta-se na vida, se tudo é indiferente exceto a intenção moral. Deve-se casar, exercer uma atividade política ou um oficio, servir à pátria? Aqui aparece uma parte essencial da doutrina estoica: a teoria dos "deveres" (não a do dever em geral) ou das "ações apropriadas". Essa teoria vai permitir à vontade boa econtrar matéria de exercício, para ser guiada por um ...

Montaigne e a Providência divina: fortunas e infortúnios

Trecho extraído dos ensaios de Montaigne: Que é preciso prudência para se meter a julgar os decretos divinos O verdadeiro campo e assunto da impostura são as coisas desconhecidas, tanto mais que, em primeiro lugar, a própria estranheza lhes dá crédito, e, além disso, não estando mais sujeitas a nossos raciocínios habituais, nos retiram o meio de combatê-las. Por isso, diz Platão, é bem mais fácil satisfazer as pessoas ao falar da natureza dos deuses que da natureza dos homens, pois a ignorância dos ouvintes permite ao manejo de tais matérias secretas uma bela e longa carreira, em absoluta liberdade. Daí resulta que em nada se crê tão firmemente como naquilo que menos se sabe, e que não há pessoas tão seguras quanto as que nos contam fábulas, como alquimistas, especialistas em prognósticos, astrólogos, quiromantes, médicos, id genus omne. [todos os dessa espécie.] A eles, de bom grado eu acrescentaria, se me atrevesse, uma profusão de pessoas, intérpretes e controladores comuns dos de...

A luta cotidiana contra os falsos valores

Lendo a introdução deste livro que traduz as Cartas escritas por Sêneca, deparei-me com um trecho instigante e extremamante relevante para o nosso tempo. Tive vontade de compartilhar. O trecho é este: "No seu livro Über den Ungehorsam , referindo-se aos nossos tempos, escreveu Erich Fromm: 'É indubitável que nunca como hoje está tão difundido no mundo o conhecimento das grandes ideias da humanidade. Nunca, contudo, foi a sua influência também tão diminuta. Os pensamentos de Platão e Aristóteles, dos Profetas e de Cristo, de Espinoza e de Kant são hoje conhecidos por milhões de pessoas cultas na Europa e na América. Eles são ensinados em inúmeras Escolas, sobre alguns deles fazem-se prédicas em todo o mundo nas Igrejas de todas as confissões. E tudo isto se verifica simultaneamente num mundo em que se presta obediência aos princípios de um egoísmo sem limites, se cultiva um nacionalismo histérico e se prepara um tresloucado genocídio. Como é possível explicar semelhante cont...

O progresso ético como ação filosófica

O intelectual pode viver um vida envolta por bons argumentos e erudita, mas com pouca alegria e tranquilidade. É por isso que se diferencia o sábio do intelectual. O primeiro sabe viver, o segundo ainda não. Possuir informações, saber argumentar, ter raciocínio apurado não necessariamente torna alguém sábio. Nesse sentido, a sabedoria visada pela filosofia requer algo diferente do mero bom desempenho intelectual ou argumentativo, como podemos ver abaixo: (...) [Para Epicteto] o problema é quando se acredita que o progresso do filósofo acontece apenas por meio do aperfeiçoamento argumentativo ou pela capacidade de analisar discursos ou textos. É levando isso em consideração que Epicteto travou o seguinte diálogo com alguém que lhe ouvia: Então me mostra aí o teu progresso. Do mesmo modo que, se eu dissesse a um atleta “Mostra-me tuas espáduas e teus braços”, e ele dissesse “Olha meus halteres”. Tu olharás teus halteres. Eu desejo ver o efeito dos halteres. – Toma o tratado  S...

A VIDA É INJUSTA?

Eis que lendo este instigante livro do Sandel, encontro aquele brilho da filosofia: "Em 1980, quando Ronald Reagan concorreu à presidência, o economista Milton Friedman publicou um best-seller em coautoria com a mulher, Rose, intitulado Livres para escolher (Free to Choose). Era uma defesa vigorosa e explícita da economia de livre mercado e tornou-se a bíblia — ou o hino — dos anos Reagan. Ao defender os princípios do laissez-faire contra as objeções igualitárias, Friedman fez uma surpreendente concessão. Ele reconheceu que os indivíduos criados em famílias abastadas e que frequentaram escolas de elite têm uma vantagem injusta em relação àqueles que vêm de lares menos privilegiados. Ele também admitiu que os indivíduos que, sem nenhum mérito próprio, herdaram talento e dotes ocupam uma posição privilegiada e injusta em relação aos demais. Diferentemente de Rawls, no entanto, Friedman insiste em que não devemos tentar remediar essa injustiça. Ao contrário, devemos aprender a co...

A ética e as demais partes da filosofia estóica

A ética estoica está cada vez mais em evidência. Ela está cada vez mais influenciando não só quem estuda filosofia, mas também o público em geral por meio de livros mais acessíveis ao grande público. Há também movimentos ao redor do mundo que estão a resgatar a ética estoica para os dias atuais. Além disso, edições de livros dos estoicos romanos estão cada vez mais acessíveis ao público brasileiro, seja por meio digital, seja por meio de publicações de livros físicos. No entanto, há outros aspectos que também são importantes para se conhecer a filosofia estoica, inclusive no que se refere à ética: os aspectos lógicos e físicos. Não é à toa que os estoicos dividiram a filosofia em ética, lógica e física: essas três partes se entrelaçam no pensamento filosófico estoico. Neste vídeo, gravado no IV Colóquio Brasileiro Sobre Epicteto, busco esclarecer de que modo essas três partes se relacionam no ensino do estoicismo e em que medida as partes lógica e física se relacionam...

Quando dizer a verdade não adianta

"Cassandra, ou franqueza de linguagem Narram [os poetas] que Cassandra foi amada por Apolo; que, mediante uma série de artifícios, procurou obstar a seus desejos na esperança de obter dele o dom da divinação; e que, tão logo alcançou esse objetivo por tanto tempo dissimulado, repeliu-lhe francamente a corte. De sorte que, não podendo Apolo retomar-lhe um presente que inconsideradamente prometera, mas ávido de vingança (pois não queria tornar-se o escárnio de uma mulher astuciosa), acrescentou-lhe um castigo: embora destinada a dizer sempre a verdade, ninguém acreditaria nela. Portanto, suas profecias tinham verdade, mas não crédito. Isso ela pôde constatar em tudo, mesmo no tocante à destruição de sua pátria. Fora muitas vezes advertida do que havia de suceder ao país, mas não conseguia fazer que a ouvissem ou acatassem. Essa fábula parece ter sido concebida para provar quão pouco razoável e útil é a liberdade de dar aviso e conselho. Pois há pessoas de ânimo duro e obstinad...