quarta-feira, 20 de fevereiro de 2013

FILOSOFIA: ENTRE A ESCRITA E A PRESENÇA

A filosofia pode ser praticada enquanto ensino através da interpretação dos textos dos grandes cânones da história do pensamento, dos grandes filósofos. Através da interpretação desses filósofos há uma tentativa de descrever o que eles pensavam, realizando um exercício hermenêutico e descritivo. Essa prática, no entanto, só acontece devido aos seus autores terem deixado sua doutrina por escrito. Esse método filosófico baseado em textos escritos tem a vantagem de oportunizar um estudo posterior, inclusive permite um estudo da própria história do pensamento. Além disso, entendo que o estudo filosófico dos grandes autores é importante para percebermos que muitos dos nossos conceitos não são tão inéditos quanto poderíamos imaginar, que muitas ideias que julgávamos inéditas foram na verdade discutidas anteriormente, às vezes, a mais de dois mil e quinhentos anos atrás. Jacques Derrida, filósofo francês, foi um forte defensor da escrita no método filosófico. Derrida entende que a escritura é uma forma de manifestação da diferença, sendo que esta é uma estrutura fundamental no processo do pensamento, ontologicamente falando, conforme eu explicitarei mais adiante.
Entretanto, eu acredito que a filosofia também se faz de outra maneira, além da análise de textos, além do estudo dos registros. A filosofia que é discutida, conversada, tem um ponto fundamental que não é somente retórico. Enquanto dialética, no momento da discussão, nós remontamos ao pensamento de Platão que leva em conta a desimportância da escrita para a filosofia. Na sua obra Fedro, Platão descreve um diálogo em que Sócrates questiona Fedro, demonstrando que simplesmente ter acesso a conteúdos escritos não faz de ninguém um sábio, pois dessa forma só se tem os conceitos dos autores, conceitos que são alheios, e não os próprios conceitos. Portanto, conclui que ao agir desta maneira atua-se como reprodutor de conceitos externos, sendo somente portador de um acúmulo de informações.
Muito interessante é o mito descrito por Platão que corresponde à criação da escrita, apresentado no diálogo Fedro:

"Aqui está, majestade, lhe disse Teute, uma disciplina capaz de deixar os egípcios mais sábios e com melhor memória. Está descoberto o remédio para o esquecimento e a ignorância. Ele a falar, e o rei a responder: Engenhosíssimo Teute, uma coisa é inventar as artes, e outra, muito diferente, discorrer sobre a utilidade ou desvantagem para quem delas tiver de fazer uso. Tal é o teu caso, como pai da escrita: dada a afeição que lhe dedicas, atribuis-lhes ação exatamente oposta à que lhe é própria, pois é bastante idônea para levar o esquecimento à alma de quem aprende, pelo fato de não obrigá-lo ao exercício da memória. Confiante na escrita, será por meios externos, com a ajuda de caracteres estranhos, não no seu próprio íntimo e graças a eles mesmos, que passarão a despertar suas reminiscências. Não descobristes o remédio para a memória, mas apenas para a lembrança. O que ofereces aos que estudam é simples aparência do saber, não a própria realidade. Depois de ouvirem um mundo de coisas, sem nada terem aprendido, considerar-se-ão ultra-sábios, quando, na grande maioria, não passam de ignorantões, pseudo-sábios, simplesmente, não sábios de verdade."
(PLATÃO. Diálogos – Vol. V. Fedro – Cartas – O Primeiro Alcibíades. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Belém: UFPA, 1975, pg. 92-93).

Contudo, para contrapor a idéia platônica, pode-se questionar o fato de que se alguns pensadores já refletiram determinados assuntos e nos elucidaram sobre determinados aspectos, porque então nós não nos tornamos sábios ao receber aquele conteúdo já pensado? Com relação a isso, Platão entende que o verdadeiro conhecimento surge através do próprio processo de aprendizado. Neste caso, portanto, o filósofo grego defende o fato da presença no que é dito. Ele demonstra que quando nós estamos presentes podemos, inclusive, defender a nossa opinião de possíveis objeções. A dinâmica no momento da conversação faz com que tenhamos a oportunidade de esclarecer melhor a opinião que está sendo dita, enquanto que em um documento escrito aquela opinião que ficou registrada pode ser muitas vezes contradita sem a devida defesa. Outra questão que auxilia na justificação de um diálogo presencial é o fato de que, por exemplo, se nós estamos em uma sala de aula, discutindo assuntos filosóficos, perceberemos o surgimento de várias opiniões, pois estamos perante várias pessoas que representam muitas formas de pensar, tendo inúmeras vivências que podem expressar uma posição diferente sobre o mesmo assunto. Neste caso, o debate se torna rico quando essas diversas formas de pensar são confrontadas, pois são acrescentadas novas possibilidades.
Derrida, através da sua “desconstrução”, também contribuiu para o desenvolvimento de novas percepções na filosofia. Entretanto, a sua filosofia da diferença foi justificada justamente através da escrita. Sua oposição a Platão exposta no livro A Farmácia de Platão parte da desconstrução do diálogo apresentado no Fedro para afirmar precisamente a importância da escrita no âmbito filosófico. Derrida entende que a filosofia é discutida com base nos acréscimos que cada um traz à realidade, sendo a própria escritura um acréscimo à realidade. Neste caso, sua oposição a Platão está diretamente ligada ao âmbito ontológico, pois entende que o Ser presente só é o que é quando se acrescenta a possibilidade de ser repetido como tal, e na repetição acrescenta algo, pois se não há suplemento, se não há acréscimo, não tem como repetir, pois nunca deixaria de ser o mesmo. Só deixa de ser o mesmo e se repete quando acrescenta algo, quando coloca algo mais. Desta forma o ser sai da inércia, admitindo uma dinâmica em sua estrutura.
Embora eu perceba que a colocação de Derrida seja muito pertinente, entendo que, na prática, a filosofia não pode se perder de seu próprio objeto quando aceita que sejam acrescentadas idéias que não levem em conta a busca por uma verdade universal. Entendo que as diferenças servem para possibilitar um diálogo filosófico mais rico que permitam novas formas interpretativas.
Por fim, acredito que os escritos filosóficos, embora possam nos ajudar a ter acesso a diversos conceitos importantes para a compressão filosófica, não substituem o debate realizado através dos diálogos presenciais, pois estes diálogos proporcionam uma maior profundidade na discussão.

Um comentário:

  1. Pois é, decepciona um pouco quando nos descobrimos não originais, todas as ideias já foram criadas, pensamentos que achávamos ser nossos já foram formulados, já pensei nisso também. Acho que tanto a escrita quanto a fala, o debate, são importantes para a formação do pensamento. A escrita não deixa de ser uma conversa com a mente, quando visualizamos no papel a nossa opinião, que às vezes muda, e é estranho nos descobrirmos diferentes numa fase passada da vida. Ambos, escrita e debate, estão ligados, um provoca o outro.
    Adorei o texto! Beijos!

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