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Postagens

Rodo cotidiano - O Rappa (gravado em casa)

Eu e o Everton (amigo de longa data) num final de semana, após uma boa conversa, resolvemos tocar violão e cantar. Abrimos umas cervejas, eu toquei uma música, ele outra. Papo vai, papo vem, pensamos em registrar uma música naquele momento, sem ensaio, na hora mesmo. Uma música que lembra nossas referências, nossa visão das coisas. Uma música que fala sobre o cotidiano e, principalmente, sobre esse "rodo" que empurra nosso povo cansado, com sua quentinha abafada, numa espécie de curral. Empurra para um "ralo de gente" visto como comum e normal. Grande Barba, grande amigo. Essa postagem é para celebrar a música, a arte que nos aproxima, a nossa amizade. A maré para pessoas como nós pode não estar a favor nesse momento, os tempos são tacanhos, caretas, ignorantes; mas tem uma coisa que podemos fazer. Como diz a charge abaixo: Um brinde à musica. Um brinde também às nossas composições. "Sempre em frente, não temos tempo a perder. Nosso suor sagrado é...

Os Antigos e os Modernos: a filosofia vivida e a filosofia para especialistas

“Poder-se-ia dizer que o que diferencia a filosofia antiga da filosofia moderna é que, na filosofia antiga, não somente Crisipo ou Epicuro são considerados filósofos porque desenvolveram um discurso filosófico, mas também todo homem que vive segundo os preceitos de Crisipo e Epicuro. Um homem político como Catão de Útica é considerado filósofo e até sábio, ainda que nada tenha escrito, nem nada ensinado, porque sua vida foi perfeitamente estoica. Ocorre o mesmo com homens de Estado romanos como Rutilius Rufus e Quintus Mucius Scaevola Pontifex, que praticaram o estoicismo demonstrando uma imparcialidade e uma humanidade exemplares na administração das províncias que lhes foram confiadas. Eles não são somente exemplos de moralidade, mas de homens que vivem todo o estoicismo, que falam como estoicos (Cícero diz explicitamente que eles recusaram um certo tipo de retórica nos processos aos quais foram submetidos), que veem o mundo como estoicos, isto é, que querem viver de acordo c...

Agir sem apego aos resultados: uma lição do Bhagavad Gita

Resolvi compartilhar excertos de um lindo texto que estou lendo. Trata-se do Bhagavad Gita, a sublime canção [da Grande Índia]. Os trechos que separei foram os que me chamaram a atenção por serem ensinamentos focados na ação, não nas consequências. Diferente do pensamento ético utilitário, que se volta às consequências das ações, os ensinamentos de Krishna se direcionam para as próprias ações. Fiquemos então com os trechos:   “Você tem o controle tão somente da vontade em realizar o seu ofício, mas não tem direito ou garantia dos resultados de sua obra. Dessa forma, você não deve nunca estar inativo, e jamais basear a sua motivação nos frutos do seu trabalho, apenas na alegria de cumprir o seu ofício. Realize a sua obra com o máximo das suas habilidades, ó Arjuna, com sua mente sempre em conexão com o Espírito eterno. Abandone as preocupações e os apegos egoístas aos resultados do seu trabalho, e trafegue com a mesma calma e serenidade pelo sucesso e o fracasso.” (2.47-48) “...

A Psicologia de Epicteto

É com grande alegria que informo que meu artigo A Psicologia de Epicteto   foi publicado pela revista de filosofia Polymatheia, da Universidade Estadual do Ceará. Esse artigo é um excerto de minha dissertação de mestrado defendida na PUCRS entitulada Pathos: distúrbio passional e terapia em Epicteto . Eis o resumo: O presente artigo aborda a dimensão psicológica da filosofia de Epicteto. Para tal, exploramos inicialmente a distinção epictetiana entre as coisas que dependem de nós e as que não dependem, visto que é por meio dela que o filósofo separa o que é interno do que é externo. Ao fazer isso, ele foca a abordagem ética naquilo que é interno, pois afirma que é isso que depende de nós (ἐφ ̓ ἡμῖν). Dentre as ações que são ἐφ ̓ ἡμῖν, o desejo parece possuir uma relevância específica, uma vez que condiciona os demais âmbitos de ação. Além disso, outro aspecto psicológico importante para a compreensão da filosofia epictetiana é a sua concepção de προαίρεσις, dada a identific...

Os deuses helênicos são forças, e não pessoas

"Os deuses helênicos são forças, e não pessoas. (...) um deus exprime os aspectos e os modos de ação da Força, e não formas pessoais de existência. Do ponto de vista da força, a oposição entre o singular e o universal, o concreto e o abstrato, não funciona. Afrodite é uma beleza — o que nós chamaríamos de essência da beleza — , isto é, a força que se faz presente em todas as coisas belas e pela qual elas se tornaram belas. Já E. Rohde notava que os gregos não conheceram uma unidade da pessoa divina, mas uma unidade da essência divina, e L. Schmidt es­crevia com muita justeza: “Para quem nasceu grego e sente como um grego, o pensamento de uma nítida antítese entre unidade e pluralidade é afastado quando se trata de seres sobrenaturais. Ele concebe sem dificuldade uma unidade de ação sem unidade de pessoa”. Como a individualidade do deus, assim também o seu antropomorfismo não deve incorrer em engano. Ele tem tam­bém limites muito precisos. Uma força divina tra...

Sobre o cosmos: trecho do livro de Luc Ferry sobre mitologia

“(...), na maior parte da tradição filosófica grega, o mundo deve ser pensado, antes de tudo, como uma ordem magnífica, ao mesmo tempo harmoniosa, justa, bela e boa. É exatamente o que a palavra cosmos designa. Para os estoicos, por exemplo, a quem o poeta latino Ovídio, a justo título, se refere em Metamorfoses, ao reinterpretar à sua maneira os grandes mitos sobre o nascimento do mundo, o universo é semelhante a um magnífico organismo vivo. Se quisermos ter uma ideia disso, podemos compará-lo, quase em todos os pontos, ao que um médico, um fisiologista ou um biólogo descobre ao dissecar um coelho ou um camundongo. De fato, o que ele vê? Primeiramente, que cada órgão está maravilhosamente adaptado à sua função: o que pode ser mais benfeito do que um olho para ver, que os pulmões para a aeração dos músculos, que o coração para irrigar o sangue? Todos esses órgãos são mil vezes mais engenhosos, mais harmoniosos e mais complexos também do que qualquer máquina concebida pelo homem.”...

Filosofia para a vida - a proposta da revista do Pórtico de Epicteto

  É com grande alegria que anuncio o primeiro número da Revista Pórtico de Epicteto, na qual atuo como coeditor. A revista é fruto da iniciativa do grupo Pórtico de Epicteto, que resolveu criar um canal de divulgação de conteúdos relacionados a Epicteto e filosofias irmanadas. Os artigos são de mais ou menos 3-5 páginas, para divulgação de reflexões e estudos. Como diz o próprio site da revista, o objetivo é publicar "pequenos artigos, notas de pesquisa, resenhas e relatos de experiência inéditos na área de filosofia estoica e afins, em língua portuguesa, espanhola, inglesa e francesa. O público-alvo é, fundamentalmente,  docentes, discentes e o grande público". Trata-se de uma revista plural, que conta com a participação de filósofos, psicólogos, músicos, historiadores, etc., que buscam relacionar a filosofia com a vida, ou seja, viver a filosofia. Na presente edição, colaborei com uma entrevista com Donato Ferrara, criador do blog https://devitastoica.com/ , um ...